Há coisas que se banalizam na hipocrisia e nos discursos de salão. Há coisas que toda a gente sabe dizer...
Mas também há pessoas que devolvem a genuinidade ao banalizado.
Patxi, sabe fazê-lo. Sabe dizê-lo e senti-lo.
E faz-nos sentir.
Obrigado, Patxi.
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
"Niños de la calle" - Patxi Andión
Nem só o milho é descamisado

Longe deverão ir os tempos em que só o milho era o descamisado.
De então para cá, decorreu muito tempo... Ou nem isso.
E os das gerações desse tempo longínquo tiveram de se adaptar às sucessivas e cíclicas convulsões da sociedade - dita moderna e global - com a dificuldade e resistências que as mudanças em si sequenciam. Mudaram-se as mentalidades, os valores - e os princípios que cada um tinha para si como bons, acabaram por ver-se sacudidos na avalanche. A palavra deixou de ser um património inalienável e absoluto para se transformar num produto de cosmética circunstancial, sacudida e fragilizada por "próteses" de ocasião...
É o preço da modernidade...
Também as pessoas, e não só milho, se foram "descamisando": uns de uma forma, outros de outra. Os malfadados tempos em que uma sardinha dava para quatro e que a posta do meio ainda dava opção de "posta aberta ou fechada", já la vão. A mesma sardinha, hoje e em muitos lares, também dá para quatro: desde que três não gostem de peixe.
O meu país vai-se, também ele, "descamisando", aqui e ali: sem canções, sem alegria, esmagado pelas práticas de um ideário global que não se compadece com os atrasos, com as dificuldades, com questões de ética e de honra; assumindo as clivagens sociais e as situações de fome e pobreza como meros "danos colaterais".
O "antes é que era bom" só nos pode mobilizar porque, e apesar de tudo, a vontade, o carácter e a salgada capacidade de lutarmos contra as adversidades - e que herdámos de tantos e bons portugueses - não estão, ainda, reféns dos índices da Dow Jones ou do Nasdaq.
E se nos "descamisarmos", que seja para partilhar a tal sardinha com quem se atrasou no percurso...
Texto:©José Tereso
Imagem: svbeira.no.sapo.pt
Pálido Ponto Azul
Cabe-nos a nós escolher o caminho. A visão humanista de Carl Sagan, na alquimia de Vangelis.
Olhares de Natal e de todos os dias
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Rasuras no tempo

E agora, poderá ser tarde para mudar o que quer que seja.
Resta voltar ao início e vasculhar no que foi feito, como se fossem possíveis rasuras no tempo e emendas nos caminhos.
Bem ou mal, está feito. Esteve feito.
No início e no fim...
E disso não me arrependo porque fazer bem, ou mal, não é apenas isso. É resultado de momentos, de detalhes e, sobretudo, do modo como nos envolvemos em cada partida. E eu envolvo-me sempre. Teimosamente, sempre.
Até ao fim... Como se parecesse mal deixar vida no prato, numa visível aprovação à escolha do menu e ao anfitrião.
Mas de que outra maneira se pode viver?
Depois, ficam as consequências...
Há só que ir em frente e evitar os momentos maus: aqueles que, no passado, nos levaram a estar menos bem ou ausentes.
É só voltar ao início das coisas e escolher os caminhos que nos levem ao fim, e este que faça o que falta: sossegar-nos os sonos e os fantasmas.Como no princípio...
Como se voltasse ao início das coisas e dos tempos para fazer tudo, no quase tudo já feito.
domingo, 28 de dezembro de 2008
Tardes, do dia, da noite, de Natal
- "Foi aqui que venderam a Taluda! A Sorte Grande!"...
Os anos passaram e nunca a venderam, a ele... injustamente. Só o sonho lhe vendiam...
E com esse sonho ficava diferente, tão diferente que chegava a comprar-me um cruzado de castanhas assadas a um homem que todos os anos eu via ali, sempre no mesmo sítio, sempre com as mesmas castanhas, sempre com os cartuchos feitos com papel da Páginas Amarelas... e aquelas castanhas eram, também, sempre boas...
Subo aos Restauradores, passo pela montra da Casa da Sorte... Com curiosidade dorida abrando o passo, carregando as ausências e os silêncios e não encontrando a mão áspera que me guardava das luzes, das cores e dos sorrisos apressados...
Eram os carros de bombeiros, as pistolas de cowboy e carros da polícia com o pirilampo azul...
- Também para si... onde quer que seja! Onde quer que haja!...
Texto: ©José Tereso
Imagem: susanagaspar.blogspot.com
Pensamentos
França
[1871-1945]
Poeta/Ensaísta/Crítico
A política foi primeiro a arte de impedir as pessoas de se intrometerem naquilo que lhes diz respeito. Em época posterior, acrescentaram-lhe a arte de forçar as pessoas a decidir sobre o que não entendem.
in "Olhares Sobre o Mundo Moderno"
sábado, 27 de dezembro de 2008
Inquietações estóricas do Zeke

Depois começaram a abrir uns espaços comerciais que tresandavam a velas e a paus de cheiro, a venderem fumos e chinelas com a ponta revirada. Ganzas?!... O que é isto?!...Mas o que é isto?!...
(Desculpa-me lá, mas a mãe dele era mesmo da linha… O que é isto?!... Somáticas?!... Embrionárias!...)
Olha que deve ser duro uma mãe levar um arraial do filho...
Isto de vizinhas, também sabes como é que é… Um gajo compra um MP3 e elas, pimba, compram um Audi 4 porque o 4 é maior que o 3!...
Zé, mas não era por isto que eu te escrevi - mau!… vai-se mesmo esticar – porque, com esta coisa, afastei-me do assunto mas há coisas que têm de ser ditas.
Um abraço
Do teu amigo, Zeke Skreve.
Nós e a Corrupção

Realidade antiga mas que foi ganhando visibilidade.
Realidade com que todos - mais ou menos, e com nuances diferentes - pactuamos, embora nos achemos, muitas vezes, imaculados porta-estandartes de uma cruzada contra os corruptos.
Sintetizava o politólogo Luís de Sousa que simbolicamente condenamos a corrupção mas estrategicamente pactuamos, no quotidiano, com ela.
Um livro, com prefácio de Maria José Morgado, a merecer leitura atenta e que convida a uma auto-reflexão sobre a nossa postura e atitude.
Texto:©J.Tereso
Imagem:georden.blogspot.com
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Enigmas dissociáveis a 3D

(Também isto já não me espanta. Faz-me outra coisa... Mas não me espanta!)
Após esta reforma antecipada na banca, desdobrou-se em actividades e, inesperadamente, surge o pintor, o poeta e o congressista.
Numa entrevista à Lusa, na qual exibiu os muitos quadros que cobriam as paredes do seu escritório, foi referindo que não pintava para se exibir. O exercício da pintura e a sua amostragem pública eram apenas um processo de partilha de algo que foi sempre predominante na sua vida mas que se coibiu de mostrar enquanto quadro activo no BCP. Admitindo que nunca teve a pretensão de ser pintor, acedeu a inaugurar uma exposição dos seus quadros, na First Gallery, em Lisboa, porque, embora contrariado, muitas pessoas, cuja opinião levava a sério, insistiram e o motivaram a dar aquele passo.
E veio o pintor.
Muito estético... Porque, dizia: "a estética é a aparência das coisas".
Depois... Bom, depois vieram os poemas e os teoremas poéticos.
Não me surpreendeu, diga-se em abono da verdade. Imaginava-o a pintar e a poetisar às escondidas enquanto ia gerindo, na actividade profissional, os trocos. Terminou essa mesma entrevista referindo que, de toda esta exposição pública, esperava apenas que as pessoas o olhassem como pintor e poeta, dissociando disso a sua imagem de banqueiro.
(As palavras saíram assim, com mais ou menos vírgula ou esperança).
Por fim, guardo as palavras de uma sua intervenção recente, em Leiria, durante um congresso e onde, referindo-se à crise, dizia que era ela uma nova cadeia de oportunidades porque: enquanto houver quem chore, haverá sempre quem ganhe com a venda de lenços!
Esta é a sensibilidade do pintor? Do poeta? Do homem? Ou do banqueiro?
Quanto ao banqueiro, se o que tem vindo a lume na imprensa for verdade, é bem melhor que a imagem do banqueiro seja dissociada; vai deixar o poeta, o pintor e o homem em mau estado, ainda assim recomendável pelos credenciados e sérios critérios dos descobridores de talentos, arrisco eu...Ou talvez não!...
Texto: ©J.Tereso
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
A pica do poder

Já Kissinger dizia que "o poder era o melhor afrodisíaco".
O poder pontencia-nos, predispõe-nos, provoca-nos... e perde-nos!
Daí que muita gente - sabedora e experimentadora desta subtil virtualidade - se agarre a ele em desespero (não é assim, Sr. Mugabe?!...) e, por vezes, arrogantemente o exerça na expectativa de que aí resulte um ser sensual e apetecível, tão mais apetecível quanto maior for a sua arrogância ou nariz e umbigo.
Curioso, contudo, é verificar os resultados de milhares de sondagens e inquéritos, espalhados por sites da especialidade, onde a questão da eleição do melhor afrodisíaco se coloca às (aos) teenagers da modernidade.E a adolescência é mesmo assim: atirada "prá frentex" mas irremediavelmente adolescente.
E a atracção, e "ignição", teenager e periférica encontra os seus picos no: humor, inteligência, sensibilidade, "interioridades" e, cinicamente em último lugar, porte físico.
Nem uma vez o poder, na sua face social ou política, é referido como potenciador de atracção.Será que a "raposa" Kissinger se enganou quando deixou para a posteridade aquela sua constatação e prática continuada?
Não me parece!... Ele sabia do que falava: na teoria e na prática.
Alguns, com o exercício do poder, pensam que o crescimento do nariz é um bom prenúncio do crescimento proporcional de outros atributos... Há também acredite que o tamanho dos sapatos é cartão de visita para outros tamanhos...Pequenezes e pequenezas de gente, naturalmente, pequena!
Algumas - ouvi dizer a uma top-model, muito "in", da nossa passadeira de vaidades - quando experimentam os corredores, e outros confortos de cachemira, dos poderosos, "dão uma volta de 350 graus na sua vida" (sic). - assim falava a criatura
E isso faz toda a diferença...
Aos do nariz, e aos dos sapatos, não há volta a dar... Os óculos, caso os haja, não impedem o crescimento do tubérculo.
O resto, já não sei... E tenho dúvida que as leis da física nasal e sapática, ao invés da quântica, venham alguma vez a ser certezas e verdades inabaláveis.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Novas Oportunidades

É que se me vens com meias e cornetas, acabam-se os miminhos!
Imagem: plan59.com
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Bom Natal, Sr. João... Dias, não são dias!
Preferia ter-lho dito pessoalmente… Não o consegui.
E interessa, também, que assim sejam acolhidos.
- Alguém tinha de desligar aquilo!
E é esta a diferença: a m**** só deixa de salpicar as alvas e impolutas consciências dos ninguéns de bom senso ou dos cobardes sem senso, quando alguém se lhes atravessa no caminho, interrompendo o perpetuar do circuito.
(Se constar na tal lista… bom, ainda que tudo faça sentido, temo não poder assegurar o próximo piquete e tudo o resto).
Que avance o reserva de niguém… Ou alguém.
Porque em Janeiro acordamos para a crise!...

Legendas: ©Zeke Skreve
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Porque a memória não tem que ser curta...

Embora assunto não me falte, tinha tirado o sábado para assentar ideias.
Mas perante esta notícia, não resisti.
A Galp,a BP e a Repsol, até podem oferecer o combustível porque garanto-lhes que não me hão-de ver na fila.
E sabem porquê? Porque tenho memória...
Vi nas televisões uma verdadeira romaria às bombas de abastecimento da Galp e quejandos. Há quem não resista àquilo que é, para todos os efeitos, a esmola.
Porque vai acontecer...E acontecerá enquanto a nossa memória colectiva for tão frágil e egoísta; facilmente penetrável por promoções de duvidosa intenção e sempre pronta a beijar a mão do chicote.
Mesmo com este desconto, há produto mais barato. E de igual qualidade.
Eu tenho memória!...
Texto:©J.Tereso
Do porquê...

Ajeitou o candeeiro, certificou-se que acendia, meteu as chaves no armário e nas gavetas, não sem antes ter confirmado que todas elas fechavam o vazio que alguém um dia destes iria abrir e guardar, talvez, outros vinte sete, ou mais, anos de vida.
Apagou a luz do candeeiro, levantou-se, arrumou a cadeira na perpendicular da secretária, ajeitou o tapete e fez-se ao interruptor da sala vazia.
Um último olhar ao espaço e fez-se escuro. Fez-se vazio.
Com passo lento e estudado - pensado durante muitos anos - desceu a escada do edifício, passou pelo piquete e, para esconder o embargo da voz, disse:
- Boa noite e bom serviço!...
Nem esperou pela resposta que se adivinhava afundada no sofá frente às notícias, numa interminável contagem decrescente de horas e minutos, só interrompida por medos, aflições e ansiedades.
Assim o pensara, assim o fez.
Saiu para a rua, meteu-se no carro e encaminhou-se para o "Sem Niveau" para se degladiar com uma cerveja fresquinha.
Muitas vezes ali estivera - no "Sem Niveau" -, na mesa dos fundos, com pouca luz, à volta de uma cerveja, a ouvir os acordes de um jazz ambiental e a lamber as personagens que iam entrando. Várias vezes, nesses princípios solitários de noite, experimentou exercícios desgastantes, de ler nos lábios as conversas semi-cerradas dos presentes e os silêncios contidos dos ausentes.
Sempre só.
Sem festejos, sem despedidas, sem discursos e sem placas evocativas do que quer que fosse.
Nos desenhos da espuma da cerveja procurou em vão o prenúncio do futuro. Só passado ali se lia...
E saltaram-lhe para a mesa as memórias geográficas da viagem: Loures, Gomes Freire, Oliveira de Azemeis, Bissau, Bubaque, Vladivostok, Pontevedra, Portimão, Faro, Porto, Tomar e Leiria.
E em cada paragem, um gole. E em cada gole, o filme da vida, em off , num technicolor sem rugidos de leão.
Vinte sete anos estavam ali na mesa, a serem despidos à velocidade de uma cerveja.
Recordou companheiros e lobos. Por momentos pegou no telemóvel e lá estavam velhos companheiros. Nenhum lobo. Os lobos não telefonam e pouco falam, tinha-se já esquecido.
Teria a vida toda - ou o resto de toda - para os procurar...
Já de saída, embalado por Norah Jones, decidiu-se: vou abrir um pub.
Os lobos hão-de aparecer e, atrás deles, os guardadores. Quem sabe mesmo se algum pastor, perdido e confundido nas luzes, não se refugiará na mesa dos fundos.
Fica assim.
Quando puder, abro.
domingo, 21 de dezembro de 2008
Como se fôssemos muito burros!...
Acho que ainda está na fase embrionária porque eu ouço (vejo e percebo) mais do que barulhos na linha.
A nossa única defesa é falar, pensar, desentender e rodar, no sentido inverso, as mensagens.
sábado, 20 de dezembro de 2008
A crise da Verdade e da Coerência

A crise instalou-se e a fragilidade das verdades absolutas veio à tona.
Os bancos, afinal, não eram aquilo que se vendia.
O linguarejar fácil e fluente dos gurus da banca e do mundo financeiro travestizou-se e passámos a ver os mesmos senhores a fazerem acrobacias de argumentos, de "ses" e "comos" para conterem a onda de choque e a corrida massiva às caixas, para levantamento das parcas economias dos que acreditaram que o seu dinheiro - tal como as armas de antigamente - estava "em boas mãos".
Os senhores dos "Compromissos qualquer coisinha", das soluções milagrosas e dos dinâmicos conceitos empresariais anti-Estado, andam agora de mão estendida a pedir ao mesmo Estado que lhes branqueie, com dinheiro dos contribuintes, as derrapagens e o asneiredo espalhafatoso em que vivem há muito tempo. Mais uma vez se provou que o tecido empresarial português é dependente do colo do Estado e sobrevive graças a trabalho mal remunerado e à cíclica injecção de liquidez que sai, indirectamente, dos bolsos dos explorados e mal pagos.
Que tivessem decoro e vergonha, era o mínimo aconselhável.
Mas não!
Em muitos momentos, esfrego os olhos para me certificar que não estou a ver e a ouvir, de novo, um tristemente célebre Ministro do Interior do Iraque.
Mais eis que vem o Governador do Banco de Portugal, Sr. Vítor Constâncio, dizer para só acreditarmos nele...
Pois, pois, pois... Estou a ver! Mas não sou só eu a ver...
O Presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim, também deu uma achega ao que eu há muito desconfiava: "nem tenho confiança em quem governa, como é que posso fazer fé nas medidas tomadas".
Pois... Também estou nessa.
Quanto ao Sr. Vítor Constâncio, sempre digo que gostava de ter boas razões para só acreditar nele. Mas, infelizmente, tenho boas razões para fazer o contrário.A última razão deu-ma a falência do Hypo Real Estate, autorizado a trabalhar em Portugal pelo ilustre reclamante da credibilidade.
Estou a ver!... Mas vou ver mais!.
Imagem: sxc.hu
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
O "refresh" do auditório...

Propôs-se o autor revelar pormenores inéditos relacionados com as investigações do caso Joana Guerreiro – a menina de oito anos desaparecida em 12 de Setembro de 2004 da Aldeia de Figueira, perto de Portimão.
Três anos depois do desaparecimento – e falo de desaparecimento porque o corpo nunca foi encontrado – vem este ex-inspector ressuscitar para o leitor a promiscuidade e morbidez sanguinária protagonizada, segundo sua versão, pelos protagonistas do caso.
Não sei se os pormenores dos relatos dos intervenientes vêm saciar algo ou preencher alguma lacuna do panorama literário português.
Mas se já isto me parece desajustado, até porque permanecem sem resposta questões que se levantaram no decurso da investigação, não vejo a utilidade, a oportunidade e o sentido que impele alguém (que activamente participou na investigação, não tendo conseguido esclarecer cabalmente os factos no decurso desta) a escrever uma peça que coloca o enfoque naquilo que de mais brutal e mórbido pode haver no ser humano, a acreditar na versão literária.
Porque o essencial permanece na penumbra e esta é sempre subjectiva e susceptível de romance.
Porque o essencial é que a pequena Joana nunca apareceu pese embora todos os interrogatórios, confissões, desabafos e a requisição de “especialistas” a um Departamento da PJ de Lisboa, como ouvi algures, para a cabal resolução do caso.
É que o desaparecimento que envolve a pequena Joana não é único… há mais crianças desaparecidas em Portugal.
Demais… para o desejável e suportável: haver nenhuma.
E se há pais que, eventualmente, possam estar envolvidos no desaparecimento – e o caso de Joana poderá presumivelmente ser um dos exemplos –, outros há que permanecem na angústia de saber o que se passou com o seu filho, ou filha e que a sua interveniência foi apenas a constatação do facto e a dolorosa e sofrida espera por notícias. Até hoje, nalguns casos.
Prescindem bem estes últimos de, mesmo literariamente, se especularem cenários. Pensou eu, como pai.
E assim, um livro porquê?
Para quê?
Sinceramente, prefiro não responder com palavras.
Seria óbvio demais.
Prefiro responder com o silêncio de todos os pais que ainda têm esperança de um dia voltar a ver o filho que lhes desapareceu…
Nenhum livro os devolverá.
É que este contínuo desfilar mediático de personagens Ex-Qualquer Coisa e que, em dado momento da sua vida, por diferentes opções, deixaram a Coisa, enveredaram pelo caminho que os verdadeiros investigadores ( independentemente da área de trabalho) sempre rejeitaram: o mediatismo e a exposição.
E é a isto que vamos assistindo: à proliferação de uma casta mediática de especialistas mas também de palpiteiros e paisagistas – salvaguardando o devido respeito pelas pessoas – que encontraram na comunicação social a compensação e a publicidade que a Qualquer Coisa não lhes dava, não potenciava e rejeitava solidariamente com os que sempre fizeram o trabalho, no mais espartano dos anonimatos, em equipa.
E grandes e anónimos foram - e são ainda hoje - muitos inquestionáveis especialistas, nas mais diferentes áreas.
Grandes e anónimos por uma questão de hábito e missão.
A comunicação social usa os ex-qualquer coisa e eles, os que não se sabem acautelar, deixam-se usufruir rendidos ao brilho das luzes.
E é vê-los a opinar, a palpitar, a gerirem a órbita que os amarra e promove.
Saem da Coisa mas não resistem ao prefixo ex-Coisa.
Tudo isto para dizer que a morte vende… vai vendendo, reedita-se e foi lançada na banca, despudoradamente.
Eu não compro… prefiro reflectir no que não se sabe e que permanece nos bastidores do silêncio dos desaparecidos
Às armas! Depois, logo se vê!...

Curioso... e estranho, num povo reconhecidamente pacífico e amante da paz e do sossego.
Só que as armas, e o modo como o português lida com elas, são sempre perigosas, no mínimo, para dois: o utente e o alvo.
As armas que fazem a delícia do português são, preferencialmente: as de fogo, o carro e o voto.
Nenhuma das entidades que regulam a detenção e uso destas ( PSP, DGV e CNE) atina com o o número de utentes e com um melhor desempenho destes.
Somos assim... Calmos e ordeiros, mas armados até aos dentes.
Penso que apenas gostamos de andar armados...
E que figurinhas alguns vão fazendo quando se armam!
E o problema reside aí: é que continuamos a não atinar com a melhor forma de usar as armas de que, legalmente, dispomos.
Também por isso, continuo a preferir as armas brancas: ajudam-me a cortar o bife!.
É preciso é calma... Mesmo armado.
Ainda que em parvo.
domingo, 14 de dezembro de 2008
Do milho e de outras transgenias

Pretendiam com o seu “acto simbólico” chamar a atenção para os reais perigos dos OGM (Organismos Geneticamente Modificados).
Daí que um grupelho de moçoilos e moçoilas com preocupações ambientalistas – entre muitas outras – de cigarro numa mão e telemóvel na outra, entraram na referida herdade e “num acto simbólico mas de acção directa” – foram os termos empregues por um dos mandatários do agrupamento – invadiram-na e devassaram-na perante o olhar incrédulo do proprietário e a passividade incompreensível da autoridade local presente (GNR).
Não conheço o agrupamento, a filosofia, os propósitos deste ramo dos Ecotópicos. Apenas os actos…
Vi-os na televisão, vi as (in)justificações de um seu porta-voz e, sinceramente, fiquei abismado: como é possível a alguém fazer e dizer tanta asneira em tão pouco tempo!
Que o problema dos transgénicos tem de ser equacionado e correctamente dimensionado nos prós e contras – e parece que os há, mesmo na comunidade científica –, de uma maneira frontal e que não fique limitado na redoma dos “interesses”, é um facto e uma necessidade. Agora a mensagem não pode ser a que o agrupamento Verde Eufémia escolheu para lançar a discussão do problema.
Assisti não a um “acto simbólico” mas apenas a uma situação tipificada na lei como invasão de propriedade e danos.
Assisti ainda a um desfilar folclórico, de cariz arruaceiro, que em nada abona a causa ambientalista. Se a chamada de atenção para as questões ambientais até colhe a simpatia e a atenção daqueles que nunca se questionaram com o problema, desta forma criou-se o rótulo que poderá, aos menos atentos, levar a fazer colagens de vandalismo e arruaça barata aos que verdadeiramente, de forma convicta e consciente, apelam à equação do problema dos transgénicos, em particular, e de uma melhor qualidade de vida, genericamente.
Lidar com o milho - com os outros e com a vida - com práticas fundamentalistas, não vai seguramente propiciar a serenidade que terá que estar presente sempre.
Tenho a certeza que os ecologistas e os ambientalistas não vão agradecer a este agrupamento a sua mensagem porque descaracterizou e caricaturou, apalhaçadamente, a imagem de seriedade por que têm lutado em prol de um desígnio que nos devia fazer reflectir.
Também a GNR não se poderá orgulhar do papel a que se prestou naquele brilhante desempenho dos moçoilos e das moçoilas. Assistir impávida e serenamente, escoltar os vândalos e aconselhar, a espaços, os envolvidos fisicamente a abraçarem-se e perdoarem-se uns aos outros, não me parece o desempenho aceitável e exigível.
Fica-me a sensação que nem só o milho era transgénico… Havia mais coisas.
E no meio delas, o milho é o mal menor.
Texto: ©J.Tereso
Imagem: greenpeace.blogtv.uol.com.br
Ainda os hei-de ver a fumar!...

sábado, 13 de dezembro de 2008
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Bufos!... Boateiros!...
Snipers e voyeurs das manhãs de domingo

Gosto de me levantar cedo, de uma chuveirada meia arrepiada e sentida. Depois, à pressa e antes que acorde completamente, precipitar-me para as bombas da Total, comprar o jornal e passear-me nas "gordas" enquanto me inundo e mergulho num cigarro e na bica quente...
Isto é viver outra vez...
Encosto-me à mesa de pé alto, vou sorvendo o cigarro, falando com a bica, atalhando a leitura e deixar que a manhã vá nascendo devagar, em bicos de pés... para não acordar a 2ª Feira.
Gosto de estar aqui uns momentos e ver a cidade a acordar...
Gosto de ver e observar - com a vivacidade de um voyeur - os despertares que vão chegando ao quiosque das bombas...
Como aquele ali, o do BM... o de fato de treino e sandálias.
Chegou à area de serviço, parou a "bomba" - bem mais apelativa que ele todo junto - no local de abastecimento, olhou com desprezo para a mangueira e entrou na área de atendimento.
Com um ar desportivo - tipo empresarial made "in Ribeira dos Milagres" - olhou para o expositor de revistas e jornais com aquele ar de " deixa cá o que é que estes gajos dizem!..."
Retirou um matutino, depois de ter ensaiado a recolha de duas revistas, e borrifou-se, com sobranceria, para o letreiro que "solicitava" a restrição à leitura e manuseamento de jornais e revistas... sem a óbvia compra!
Reconheci-lhe o perfil e a fisionomia: é dono de uma "cadeia" de estabelecimentos de suposta restauração e de "bolinhos" aqui de Leiria... É mais um dono do mundo!
Não vem na "Forbes"... este é o tipo de gente que, normalmente, sai naquelas edições especiais das Finanças e nos editais dos Tribunais. A "Forbes", por enquanto, ainda não o descobriu... Mas já lhe olhou para o BM.
Recordo-me dele ter dado uma entrevista - provavelmente paga - para um jornal regional onde dizia, entre outras bacoradas, que "as pessoas não queriam trabalhar" e o mundo empresarial - onde ele, atrevida e abusivamente, se incluía - estava à mercê desta "gente"...
Uma entrevista edificante... Principalmente quando me fui apercebendo que a "gente que não queria trabalhar" eram estudantes imberbes que transformavam o servir à mesa num arriscado exercício de equilíbrios e acrobacias... Tudo a troco de uns míseros 400 euros, ou nem isso.
Eles poderiam não querer trabalhar... Mas ele, seguramente, também não queria pagar. E para servir clientes em Leiria, qualquer coisa serve... Muito respeitador.
Mas voltando à "encomenda", ali estava ele a dirigir-se ao balcão e com voz "trafulha" e autoritária - sem direito a bom dia - pediu tabaco, um galão e uma merenda de chouriço.
Pagar o jornal... nada!
Arrumou a barriga na mesa contígua à minha, abriu o jornal, e atacou o pão com chouriço, regando-o sofregamente com um gole de galão. Ainda mastigava o chouriço e já o dedo malandro se encaminhava para a língua - que desfraldou - para o molhar e lhe dar aderência.
Objectivo: molhar o canto da primeira página e passar à seguinte.
Uma demora curta na 2ª página e nova viagem do dedinho empresarial ao imenso lençol da língua, na química de cuspo e chouriço que cria aderências que nem a UHU se atreve a desafiar.
Às páginas tantas, e cansado das elevações do braço, passou a olhar de soslaio o dedo e com a precisão de um "sniper", chuviscava-o de longe para que cumprisse a sua função: virar outra página.
E aquilo foi uma boa meia hora de "copy" "paste" alucinante. Era um rodízio de sabores regionais com cariz informativo.
Prolongou-se aquela prestação empresarial num folhear alegre e húmido, numa viagem ao tenebroso mundo das notícias à borla, temperada aqui e ali com aqueles sabores que só um galão e um pão com chouriço conseguem dar...
Por fim, bem informado e de barriga cheia, num gesto de terna boa vontade, amanhou o jornal, batendo-o vigorosamente nas migalhas do pão e no resto do acúcar que foi semeando à sua passagem, dirigiu-se ao expositor, com ligeireza nas sandálias, e ali abandonou o matutino.
Ali ficou o matutino à mão de semear, com odores e humidades que só lhe acrescentavam mais-valias, à espera que alguém decente o comprasse, finalmente, e partilhasse os restos de chouriço e cuspo com "pedrigree" empresarial.
Com a mesma sobranceria com que entrou, saiu.
Dirigiu-se ao BM, deixou finalmente o espaço livre para quem quisesse abastecer, e fez-se à cidade.
Saí para a rua e abandonei-me ao domingo pelas ruas mas sempre atento ao dobrar das esquinas, receando que um "sniper" me tirasse a mirada e me humedecesse o dia... se calhar, e com algum azar, com restos de baraço do chouriço.